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Museu do Ipiranga é patrimônio
nacional há 110 anos

Construído para retratar a história do Brasil a partir da grandeza de São Paulo, o Museu do Ipiranga vem cumprindo o seu papel 110 anos depois da sua inauguração, em 1893. Transformou-se também no portal do Ipirang a  desde que foi inaugurado. Este centenário patrimônio nacional, oficialmente batizado de Museu Paulista, mantém a vitalidade graças ao seu público, o maior entre os estabelecimentos do gênero no Estado. Foram 264 mil visitantes só em 2002, sendo 50 mil estudantes. No Dia da Independência deste ano, bateu o recorde de todos os tempos para um único dia: nada menos que 14 mil visitantes.

Não é preciso muito tempo para o museu “ganhar” o visitante. Uma simples passagem pelas redondezas desperta a curiosidade de saber o que há no interior do prédio em estilo de palácio renascentista e eclético, muito em moda na Europa do final do século passado e projetado pelo arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi.

Já nos primeiros passos em área do museu percebemos o quanto nos aguarda. O próprio prédio tem um valor arquitetônico difícil de passar desapercebido até para um leigo na matéria. Da escadaria de pedra da fachada principal (123 metros de comprimento) ao saguão, onde está a segunda escada, de mármore, com o tradicional tapete vermelho ao centro. Antes, para lembrar que estamos num museu e não num palácio imperial, passamos pelo primeiro carro do Serviço Sanitário da cidade, de fabricação francesa. Puxado por dois burros, ele foi, em 1891, a esperança dos paulistanos para se libertar das epidemias, com a vaporização de formol.

Mas voltemos à escada de mármore, porque acima dela há muitas figuras (humanas) retratadas em pequenos painéis nas paredes próximas ao teto, decoradas com motivos vegetais escavados no mármore, que lembram folhas e raízes regulares como a natureza não pôde, ou não quis, produzir.

Vamos parar no meio da escada, porque é dali que é possível avistar melhor e saber quem são afinal aquelas figuras em poses imponentes.

São bandeirantes e militares em sua maioria, se percebe logo. Homens que deram início à supremacia econômica paulista no País à custa de muito extermínio, é verdade. Está nos painéis. Num deles se lê: ciclo da caça ao índio. Isso mesmo. Museu tem entre suas funções esta, a de mostrar o passado para se entender um pouco do presente.

Deixemos os bandeirantes com suas glórias e suas consciências para trás e entremos no salão nobre, logo que acaba a escada de mármore. É ali que está exposta a tela que representa o nascimento do Brasil como nação. Pintada por Pedro Américo, a pintura nos remete aos livros escolares imediatamente.  Deve ter quase quatro metros de largura por três de altura. E, no livro, tão pequenininha.

No mesmo salão nobre temos outras telas de personagens da história da nossa independência. A promessa é a de que, ao longo dos próximos meses, teremos muito mais do acervo de pinturas do Museu Paulista em exposição. Muitos,  quadros do pintor Benedito Calixto, natural de Itanhaém (Litoral Sul).

Calixto pintou, sob encomenda, 50 telas para o museu. A partir da idéia de um diretor do lugar, o pintor, que conhecia muito da história brasileira, tinha por objetivo mostrá-la através das telas, de uma forma que até os analfabetos pudessem entendê-la. A fundação da Vila de São Vicente, a primeira do Brasil, é o ponto de partida.

Acervo mostra os hábitos através dos anos

O Museu Paulista é muito mais que quadros que mostram a história. Apostando nos objetos do cotidiano, o museu descortina a ambientação da época para os visitantes, desde um simples passeio à pesquisa de estudiosos. Os móveis, as salas de estar, os transportes, como as liteiras, espécie de carroça sem rodas, com um burro à frente e outros atrás e dois barões no seu interior, já que era transporte de gente muito rica.

Chapéus de todos os tipos estão numa das salas. Passando os chapéus, ainda na mesma ala, há um ambiente cheio de casinhas e igrejas. É a maquete da cidade de São Paulo no ano de 1841. Feita em gesso na década de 20, mostra o quanto São Paulo cresceu nos últimos 150 anos.

Armas de todos os tipos, uniformes dos militares do século XIX, enfeites das casas dos mais ricos, peças retiradas dos sítios arqueológicos do Estado. E fotos, muitas, que mostram a transformação da capital paulista de vila crescida à grande cidade, com a colocação dos trilhos para bondes de tração animal e obras de infra-estrutura. São aproximadamente 125 mil peças. Nem todas expostas, porque seria impossível de uma só vez. Vale, também, visitar os jardins franceses que se alongam à frente do prédio, construídos em 1908 e inspirados nos do palácio francês de Versailhes.

O Museu Paulista fica no Parque da Independência, sem número. Abre de terça a domingo das 9h às 16h45. Ingressos a R$ 2,00. Crianças até cinco anos e maiores de 60 não pagam.

Museu é um pólo para o aprendizado e o lazer

Construído numa colina às margens do Riacho Ipiranga, o Museu do Ipiranga representa um passado materializado. Tem a função intrínseca de desenvolver ações que possibilitem, ao público que o visita, experiências de aprendizado e lazer. Desde a sua fundação desempenha um importante e significativo papel educativo, segundo relato da professora Denise Cristina Peixoto, pós-graduada em Arqueologia.

“Na verdade ele foi construído para ser o Memorial da Independência do Brasil. Foi um museu de história natural, teve várias fases, várias características e, desde 1989 ele é um museu de história e cultura natural”, explica a professora Raquel Glezer, a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora do museu. Hoje, ele se constitui num centro de visitação para estudos, pesquisas e lazer, recebendo um público de cerca de 250 mil pessoas por ano de todas as partes do Brasil e Exterior.

A presença do museu, com os jardins estilo francês, projetados em 1907 pelo belga Arsenius Puttemans, não serviu diretamente de incentivo para a ocupação da área. Muito embora a Light  tenha colocado uma linha de bonde do Centro da cidade até a entrada do prédio, o Ipiranga continuava a ser um local distante, cortado por charcos insalubres e com raras ruas pavimentadas ou iluminadas.

Os festejos do Centenário da Independência (1922) acabaram forçando o governo planejar diversos melhoramentos nas margens do Riacho Ipiranga, descrito na época pela Revista do Brasil como um “novo Jordão que lavou o país do pecado colonial”.

O Museu do Ipiranga está entre os quatro maiores do Brasil e o segundo mais visitado, perdendo apenas para o Imperial de Petrópolis (RJ). Não há, segundo Raquel, um levantamento detalhado sobre o tipo e origem dos freqüentadores.

No museu também existe um setor de pesquisas que colabora para o conhecimento da história do Brasil, diz Raquel, lembrando que é obrigatória a visita a museus, pelas escolas, no processo de formação nacional, como prevê o Projeto Nacional dos Parâmetros Curriculares.

O acervo é formado por mais de 100 mil unidades entre documentos pessoais, livros raros, fotografias, esculturas e pinturas, dentre outros objetos. Ali podem ser vistos objetos do início da colonização brasileira, no caso das ocupações de terras, durante o século 16, informa Raquel Glezer.

Por fazer parte de um complexo histórico-cultural na Praça do Monumento, a diretora diz que o Museu do Ipiranga é mais antigo que o Monumento da Independência que é chamado de segundo monumento. Ela confirma que, quando da sua construção, a região era praticamente desabitada. Inclusive foi projetada uma via de ligação entre a marginal do Tietê e o Ipiranga, acreditando-se que sejam hoje as avenidas dos Estados e D. Pedro I.

Por ser a primeira mulher a ocupar o cargo, a professora Raquel Glezer, modestamente, fala que espera não ser a única “e sim a primeira de uma série”. Mas considera uma grande responsabilidade, tendo em vista as muitas dificuldades que tem enfrentado, principalmente de ordem financeira.

 “Embora a USP banque todo pessoal e forneça condições para o bom funcionamento do museu, sempre há necessidade de mais recursos. Estamos sempre precisando de patrocinadores”, esclarece, referindo-se à participação da iniciativa privada. O primeiro diretor foi Hermann von Ihering, cujo trabalho fez com que o Museu Paulista se tornasse reconhecido internacionalmente, tanto pelas suas coleções, quanto pelas pesquisas desenvolvidas na área das Ciências Naturais.

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